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Uma história de família

Eu e meu irmão sempre fomos muito unidos. Ele costumava me proteger nos tempos de escola. Havia alguma valentia a mais nele do que em mim. Eu costumava tentar me… encaixar naquele meio. Eu buscava ser querido. Eu queria… estar certo. Mas nada fazia sentido. Aquilo não era para mim. Então eu desisti. Desisti da escola. Não larguei os estudos, até porque nossa mãe nunca deixaria, mas desisti de tentar fazer com que eu entrasse em uma caixa que não tinha nada a ver comigo. E ele pareceu me entender, pois ele nem ao menos tentou isso. As pessoas não gostavam de nós. Elas nos olhavam como se fôssemos sujos, como se fôssemos ratos. Muitas vezes, quando nossa mãe veio nos buscar na escola, as outras mães a olhavam com repúdio, pois ela não tinha um homem ao seu lado, apenas dois garotos para criar. Ela fingia não ligar, nos pegava pela mão e tentava perguntar sobre a escola, mas eu via que ela não estava bem. Só tentava esconder de nós, pois não queria nos ver tristes. Eu a admirava e eu desejava protegê-la, mas antes de tudo… eu sabia que tinha que aprender a me proteger de mim mesmo.

Meu irmão não comparecia às aulas. Isso preocupava a mamãe. Resolvi repetir um grau para impedir que ele continuasse ou pudesse perder o ano. Nós ficamos ainda mais inseparáveis e, a partir daquele momento, eu sabia que nós nunca mais iríamos nos separar.

Teve um dia em que arrumei uma briga. Um garoto alto, mais forte e gordo me batia muito. Eu estava no chão. Eu senti meu rosto em contato com o chão frio de gelo. O sangue escorreu e manchou um pouco. Ali eu vi o quanto eu era frágil e não tão forte quanto achei que fosse. Eu vi uma sombra. O garoto tinha parado de me bater. Quando dei por mim, eu vi que meu irmão tinha se metido na briga e batia sem piedade. A força do meu irmão. A gana para luta. O fogo, o ódio, a ira em seus olhos que quase tingiam o azul. Ele venceria na vida. Ele estaria com medo, mas ele nunca falaria. Como eu sabia que ele tinha medo de altura, mas nunca iria dizer, pois… não admitia ser fraco. E toda a sua revolta, a falta de um pai, os abusos sofridos na infância, as crianças abandonadas à própria sorte o fariam o vencedor que é hoje.

Esse era o garoto que eu conheci. O lutador. O soldado. O rei.

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