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Ele filosofando o amor

Estávamos tentando de novo. Nós nos amávamos. Não queria mais decepcioná-la. Estávamos em silêncio. Ambos distraídos. Ela olhava seu documento enquanto eu estava debruçado no carrinho com nossas malas.

No momento do check-in, ela me tomou a frente. Eu a observei agir. Há tão pouco tempo, ela era apenas uma menina que tinha medo de interagir com outras pessoas. Eu lhe tinha ensinado tudo o que ela sabia hoje. Como chegar, se portar, até finalmente falar um inglês fluente, arriscar algo de francês e estimular seu espanhol, mas nunca pude lhe ensinar a ser a mulher que é hoje. Segura, sensível e sensual. Os homens a olhavam com frequência, e não havia uma idade média para eles. Ela retribuía em alguns casos, mas eu fingia não perceber. Era jovem demais e até demasiadamente responsável com sua própria vida. Se eu lhe ensinei a metamorfose, se transformar de lagarta para borboleta, ela com certeza tinha me ensinado o mais importante da vida de qualquer ser humano: amar.

Quando lhe perguntei por que ela tinha se apaixonado por mim, ela respondeu:

— Me apaixonei por você porque eu pensei que você fosse um grande líder. Um cara visionário. Um bom homem.

Abaixei meus olhos. Minha convicção fora atingida.

— Mas você não era nada disso. Você apenas era um bom observador. Um erro aqui, outro ali, mas um bom observador, sim. — Suspirou. — Não me arrependo por ter me apaixonado. Cada um vem com uma missão. A minha talvez seja fazer você ver que nem tudo é dinheiro e solidão e que há coisas melhores do que isso, sem você precisar comprar ou pagar com o próprio corpo ou alma.

Sorriu e se dedicou a olhar uma revista à frente. Não me respondeu mais nada, mas pude contemplar o encantamento dos seus olhos quando tinha falado tudo aquilo. Em um momento anterior, tinha vindo como espectadora, e agora fazia parte do meu mundo. Nosso mundo. Aquele que escolhemos viver para sempre.

Seria uma nova etapa na nossa vida, mas ao contrário do que eu sempre apresentei, eu não tinha tido medo dela. Ela sabia como ninguém o que estava fazendo, e eu acreditava nela. Acho que sempre acreditei, só não me permiti ver isso. Hoje entendo que parte do homem que me tornei também tem muito a ver com o que ela me ensinou a enxergar e ser. Por isso acabo sendo sempre grato a ela.

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