NarrativasRevisadoSem signo

Por dentro da imaginação

Eu me mantive “alto” uma vida toda. Era difícil aceitar o quanto seria árduo ter que encarar a realidade de não nascer pronto. De não nascer feliz. Muitas vezes eu tive para onde correr. Eu tive como escolher que poderia não… ser o momento de enfrentar os meus medos.

A corrida me fazia forte. Eu podia mostrar o que eu era sem ter alguém para gritar que estava insatisfeito. Sem ter alguém para passar a mão no meu corpo quando eu não quisesse. Só quando eu quisesse. Mas dessa vez era diferente.

Eu estava fugindo de um sonho. Correndo de mim mesmo. Eu não aguentava ver que ela não suportaria as minhas dores. Que toda a minha vida dupla tinha sido uma mentira da qual eu não lembrava. As minhas risadas tinham sido tão falsas. E as garotas com quem eu tinha dividido o lençol… Eu só queria apagar a sombra dela. Ela há tão pouco não representava nada.

Não queria que houvesse ela, nem ele, nem mesmo você… Só… a minha dor em saber que fracassei, que eu sou a ficha ruim de todos vocês. Que não havia como trocar alguma coisa para jogar fora.

Uma mochila nas minhas costas. Poucas roupas para a estadia, muitas culpas para ajudar a fazer volume. Quem são essas pessoas que sorriem para mim enquanto eu caminho para a minha moto? Eu não conseguia fazer nada a não ser tentar dissimular um sorriso também, mas a ideia de ser tão falso me fez fechar a cara. Eu gostava de me sentir acolhido, e não abraçado com uma faca nas minhas costas.

Ela falou tanta coisa, e eu já tinha um pouco de adrenalina nas veias. Metade eu ouvi, metade eu decidi que deixaria para trás.

Por trás de sua cabeça, eu presenciei o que deveria ser a última discussão entre eles. Eles eram tão idiotas em não ver que seriam um desastre juntos e que morreriam separados. Eu sempre quis algo que me fizesse manter meus pés presos em algo racional. Eu queria algo que prendesse. Que não me deixasse enlouquecer. Algo que estivesse acima do meu colo e fizesse amor comigo em vez de me mandar embora a cada burrada, porque… se eu tivesse isso, seria a única razão para não continuar tropeçando nos meus próprios pés.

Será que ele não via? Que as coisas aconteciam melhor quando você quebrava suas muralhas de gelo, meu caro irmão?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Botão Voltar ao topo
Fechar