RevisadoSem signo

Não é coincidência

Eu sabia que eu poderia encontrá-la em qualquer uma dessas ruas. Era como se fosse o instinto ou o destino me pregando o que não poderia deixar para trás. E ainda assim, quando estive a olhar para meu lado, pude vê-la caminhando do outro lado da rua, no mesmo sentido que eu.

O vento soprou meu rosto para o lado, onde pude encontrá-la. O tempo pareceu parar. O frio corroeu meu peito, e as expectativas que vi dentro dos seus olhos também. Não consegui mover meus músculos, ao contrário de você, que vinha na minha direção.

Estando perto ou a uma rua de distância, ainda não pudemos dizer uma palavra.

— Ou isso é o destino ou é uma mera coincidência. — Ela pareceu sorrir ao olhar para baixo.

O conjunto, sabe? Os olhos azuis, mais o rosto milimetricamente esculpido, o jeito meigo de pedir, de falar.

A cadeira me prendeu naquele momento. Eu a vi desaparecer da minha vista sem ter dado muito ouvido ao que aconteceu. Ela costuma falar muito, mas não ouço quase o que diz. Mas vi a dor estampada nos seus olhos. Eu a tinha machucado demais. O que me deixava com raiva era como ela não me deixava chegar perto das suas feridas e como havia trancado seu coração. Estar sozinho não era uma novidade, mas quando você ganha algo que nunca imagina ter e depois isso lhe é tirado, sem dúvida é pior do que nunca ter tido.

Descobri seu endereço, acompanhei suas idas e vindas pelas ruas sem que me notasse. Eu a vi em uma banca de jornal olhar uma revista que tinha uma foto de casal feliz na capa e depois ignorar. Ela deu alguns passos a mais, e foi quando eu vi que tudo tinha mudado entre nós, principalmente quando saiu com seu novo par. Os dois pareciam felizes e integrados.

Eu estava arrumando as coisas pela noite. Não era muito tarde, mas o bastante para alguma criança estar dormindo. Eu pensava. Eu lembrava quando ela já havia se deitado e falou alto algumas vezes para que eu pudesse me juntar a ela. Prometia tanto que logo iria. Podia ver as luzes da cidade, e isso era reconfortante. Aquela cidade tinha mesmo o melhor, tanto para um jovem solteiro ou um casal apaixonado.

Simplesmente perfeito.

E isso era o que poderia me dar esperanças ou me tirar elas por completo, porque… faltava você. Porque eu tinha errado e não conseguia me desculpar.

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