RevisadoSem signo

Ela o amou por tantas e tantas vidas

É estranho dizer como tudo começou, mas de uma certa forma eu já sabia que aconteceria algum dia. Sabe aquela sensação de você pertencer a algum lugar, de pertencer a alguém, e sentir que vai esbarrar nessa pessoa em algum momento? Eu sei. Na verdade… eu sabia. Eu sempre soube. E aconteceu. Não da forma como eu esperava, tipicamente naquelas cenas de filme em que você encontra seu grande amor na esquina, derramando café na sua camiseta. Não. Algo completamente diferente…

Recorri a uma rede social de relacionamentos, o que antes nunca me passou pela cabeça fazer. Mas alguns conhecidos meus usavam e diziam que coisas boas poderiam vir de lá. Por que não, então? Decidi dar uma chance.

Depois de passar por incessantes fotos que não me provocaram reação alguma, uma me chamou a atenção. Eu olhei para aquela pessoa várias e várias vezes. Não era do meu feitio ficar assim com cada homem bonito, mas ele… não me parecia um homem qualquer. Eu precisava falar com ele, e para ontem! Curti seu perfil, e logo estávamos conversando.
 
“Ei, moça. Como vai você?”, ele me mandou.
 
Eu sabia que seria chacoalhada, mas não fazia ideia de que a partir dali a minha vida mudaria para sempre.
 
“Vou bem, e espero que você também esteja. Nossa… Parece que te conheço há tanto tempo, e isso nem é uma cantada”, respondi.
 
“Talvez conheça…”
 
“Nem brinca.”
 
“Não acredita em vidas passadas?”
 
Bingo.
 
“É. Acredito. Mas nem todo mundo esteve nelas.”
 
“Por que diz isso?”
 
“Porque não nos conhecemos bem. Então acho que ainda é cedo.”
 
“Talvez a gente já se conheça. Só falta lembrar.”
 
“É. Pode ser.”
 
Ele se destacou na multidão. Para alguém num aplicativo de relacionamento, ele até que começou bem. Daí em diante, o assunto foi ficando mais escasso, e confesso que fui perdendo um pouco do frisson que tive no início. Ele me parecia um tanto “fútil”, e, se tem uma coisa que não combina comigo, é alguém que se prende nas suas futilidades.
 
Porém, mais uma vez ele me surpreendeu. Fomos nos adentrando na política, um assunto que vinha me interessando bastante. Queria tanto mostrar meus argumentos bem construídos, mas ele também tinha os dele, e eram muito bons. Tanto que percebi desmontarem os meus.
 
Eu estava impactada.
 
“Ei”, ele me mandou, tirando-me da minha reflexão. “Posso te encontrar hoje mais tarde?”
 
Era madrugada.
 
“Ah, eu preciso sair. Ver uma amiga que faz aniversário.”
 
“Posso ir com você.”
 
Eu ri. Quanta audácia.
 
“Acho melhor a gente ver outro dia. Tudo bem?”
 
“Sexta, então?”
 
“Sábado.”
 
“Tenho um compromisso. Domingo?”
 
“Sim. Perfeito.”
 
“Então podemos nos falar até lá.”
 
“Podemos, sim. Vai ser ótimo.”
 
“Gostei de conhecer você.”
 
“Eu também.”
 
É… Eu também.

E o encontro aconteceu. Aliás, quase não aconteceu, né? O cara perdeu a carteira, mas ele finalmente encontrou e chegou, mesmo vários minutos atrasado. Um cara de blusa moletom, sandálias e bermuda desfiada, enquanto eu estava a mais perfeita princesa. Me perguntei inúmeras vezes o que eu realmente estava fazendo ali. Ele não tinha nada a ver comigo.

Até que o rosto dele… Memórias. Memórias que sempre me ocorriam em forma de sonho. Tudo parecia tão estranho, mas ao mesmo tempo banal. Eu sequer me importava com as visões que tinha até encontrar muitas dessas evidências descritas na minha frente. Pessoas aleatórias me confirmando sobre o que eu tinha vivido sem eu ao menos ter dito nada. Agora… eu olhava para o rosto dele e me lembrava de um homem que tinha marcado profundamente a minha vida. Fiquei à vontade em tê-lo ali comigo.
 
Ao fim da noite, ele me levou em casa de carro. Conversamos muito sobre tudo. Era verdade que eu não queria ir embora, mas me parecia que ele também não. Havia uma conexão e uma certa curiosidade, até que… mais uma vez, intensos flashes surgiram dentro da minha cabeça. Era ele. O cara que eu via nos meus sonhos. Algo altamente fantasioso, mas nítido. Real. Era ele, e uma dor me acometeu. Eu o amei por tantas e tantas vidas. E eu o perdi por tantas e tantas vidas.
 
E agora… eu o tinha na minha frente mais uma vez.
 
— Você… esteve comigo em outras vidas.
 
Qualquer pessoa me olharia com estranheza perante essa frase, mas ele não. Ele me olhou com familiaridade.
 
— De alguma forma, eu sabia disso. Você nunca me foi estranha. Brinquei com você nas mensagens, mas eu sabia que não era tanto brincadeira assim. Só precisei confirmar.
 
— Eu… não sei o que dizer. — Uma lágrima escorreu naquele momento. — É como se não fosse eu. É como se fosse muita gente dentro de mim que… te amasse.
 
Ele se calou, e eu entendi: eu tinha ultrapassado um limite.
 
Ele me beijou, e eu sabia que naquele beijo havia algo além da atração física. Havia duas almas se reconhecendo. Ficamos a noite inteira ali, dentro do carro. Ele se deitou no meu colo. Era minha primeira noite fora de casa até as sete da manhã. Meus pais certamente reclamariam, mas, de uma certa forma… eu sabia que estava fazendo a coisa certa. Só não sabia até quando aquilo tudo iria mudar.
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