RevisadoSem signo

Como ele te ganhou

Eu acordei naquela manhã um tanto transtornado. Olhei para a pessoa deitada ao meu lado. Suspirava leve. Mexi em meus cabelos recém-cortados; fazia muito tempo que não os sentia tão curtos, e isso servia apenas para reter um tanto minha preocupação. Observei-a mais um momento; o movimento de seu diafragma me alertava que estava tudo certo com ela. Ainda assim não retive os dois dedos que lhe depositei na garganta a fim de sentir seu batimento cardíaco. Está tudo bem com ela. E isso era uma das coisas que mais me importava.

— Foi só um pesadelo — soltei baixo.

Me deitei mais uma vez, apagando a fraca luz do abajur que tínhamos esquecido acesa. A manhã seria longa. E pela primeira vez, quando eu a conheci, enterrei meus olhos sobre seu corpo, mas me perdi em seus olhos. Eles eram perfeitos, ainda quando olhavam para mim, quando me ignoravam e quando seu rosto corava por eu estar perto demais.

— Desculpe, só estou… um pouco embaraçada — ela me disse, tentando se esquivar. Cara, eu precisava dessa garota. — Seus olhos me causam desconforto. Sinto muito.

Foi o que ela me disse assim que teve coragem. E soou rude como uma maneira de mandar que eu fosse embora. Eu nunca iria.

— Então, irei fechá-los. — Fechei-os para fazê-la rir.

Ouvi o som de sua risada. Ganhei.

— Melhor agora?

— Aham… — continuou.

— Por favor, me diga que…

— Abra seus olhos.

Obedeci.

E ela me beijou.

Eu sabia que estava mudando. Eu sabia que tinha mudado. Mas todo esse tempo eu não sei o que ela percebeu. Tiramos alguns dias para nós, mas… o tédio me fazia voltar a refletir sobre coisas que eu distraía enquanto trabalhava. Muitos anos de enfrentamento. Nossas guerras eram mais fortes e profundas que os nossos tempos de reconciliação, porém mais curtos e duradouros.

E nosso amor… Ele só aumentava com o tempo. Eu só queria tocá-la mais. Comprimi minha garganta e a toquei com minha mão. Perdi ar o suficiente e suspirei. Eu me sentia perdido sem ela. Eu era um homem que era só um pedaço sem a minha mulher. Às vezes essa sensação de ansiedade fazia com que eu perdesse totalmente o nexo. Eu pensava que algumas loucuras apenas para fazê-la sorrir me manteriam para sempre ao lado dela. Se a minha fé estava certa, só poderia deixar que o tempo me provasse, mas eu rezava para que sim.

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