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Ela em uma vida a dois

É difícil contar uma história sem ter onde me ater para provar. Eu gostaria que as pessoas acreditassem em tudo o que eu falo e no que estou escrevendo. Nada disso é mentira e realmente pode ter acontecido. Só que alguns não deixam que isso venha aos ouvidos de outros.

É uma coisa ruim, porque às vezes eu tenho simplesmente a vontade de não existir e acabar com tudo. Você não sabe o que eu estou passando.

Não era a primeira vez que ele insistia comigo para que eu faltasse a uma maldita aula. Na verdade, a insistência maior dele era que eu largasse a faculdade e fizesse Cinema. Esse assunto já tinha sido pauta de algumas discussões nossas.

Ele saiu um tanto zangado, mas eu não tinha tempo para crises existenciais. Vesti o primeiro vestido que vi, coloquei nos pés algo confortável, arranquei minha bolsa da cadeira e corri para tentar pegar algum ônibus. Eu já tinha a minha carta, mas definitivamente não queria dirigir o carro do “chefe”. E pegar um táxi não parecia uma boa ideia.

Consegui um ônibus por sorte e sentei, descansada. Olhei para meu celular e vi que pela hora eu talvez conseguisse chegar a tempo. Tinha uma foto minha e dele lá como papel de parede.

Rapaz, tinha tempo que a gente não se falava direito. Ele vivia correndo com trabalhos e trabalhos afins até que a gente quase não se via mais. Me afundei na faculdade, nos meus trabalhos complementares para não ser obrigada a voltar para casa e encontrar apenas pessoas estranhas trabalhando e tentando me servir de alguma forma. Não foi isso o que pensei para mim, na verdade… eu nem medi as consequências.

A gente costuma achar que, se juntar com quem você ama, vai ser um conto de fadas.

É, no início pode ser. Você aceita os erros dele, talvez ele aceite alguns seus, mas com o tempo… a aceitação se torna um coquetel que explode no momento mais propício e as acusações começam.

As lembranças me afogaram com uma enxurrada.

Nos encontramos como dois estranhos. Ele me falou sobre uma tal festa que teria que comparecer.

Segurei um pouco da minha ironia.

— Festa. Rá! Que máximo, querido.

— É só uma vez. Não vamos ficar muito. Eu prometo.

E você já prometeu tantas coisas, não é mesmo? O problema seria quando essas festas não precisassem mais de mim para terem algum sentido de acontecer.

Eu me sentia sozinha, e você não se importava muito em saber.

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